O pedido de Aurora
Aurora sempre quis um dragão como Flor. Quando Morteus, o deus das trocas, atende seu pedido, a chegada de Lotus muda o destino de uma família de dragões.

Aurora sempre quis ter um dragão como Flor.
Prima de Anastacia, ela conhecia bem o pequeno bebê dragão de pelo branco que acompanhava a princesa. Bastava Anastacia entrar numa sala para Flor abandonar o que estivesse fazendo e correr até ela. Quando a princesa estava triste, a criatura se acomodava em seu colo e permanecia ali, mesmo depois de adormecer.
Aurora gostava de ajudar a cuidar de Flor. Levava comida, participava dos treinos e deixava que ela se escondesse debaixo de seu casaco nos dias frios. Mas, quando Anastacia a chamava, Flor ia embora.
Aurora queria conhecer aquela mesma confiança. Queria uma criatura que a procurasse primeiro.
Por isso, começou a pedir aos deuses que lhe enviassem um dragão.
Fazia o pedido antes de dormir, nas visitas aos templos e, às vezes, baixinho, enquanto observava Flor e Anastacia juntas.
Durante muito tempo, nada aconteceu.
Até o dia em que as duas primas levaram Flor para treinar voo perto das montanhas.
O bebê dragão ainda estava aprendendo a permanecer no ar por mais tempo. Anastacia a chamava de uma ponta da clareira, e Aurora esperava na outra, com um pedaço de fruta para recompensá-la quando chegasse.
Flor acabara de pousar junto de Anastacia quando Aurora ouviu um chamado vindo das pedras.
Era um som curto, muito parecido com o que Flor fazia quando queria atenção.
Aurora olhou para o bebê dragão. Flor também estava olhando na direção do barulho.
— Você ouviu? — perguntou à prima.
O chamado se repetiu.
As duas seguiram o som até a entrada de uma caverna. Anastacia foi à frente, com Flor junto aos pés. Aurora veio logo atrás.
No fundo da caverna havia um portal.
Uma abertura luminosa ocupava parte da parede, e, através dela, as duas conseguiam enxergar outra pequena criatura. Tinha o mesmo porte de Flor e apertava o focinho contra a passagem, tentando alcançá-las.
Aurora deu um passo adiante.
Anastacia segurou seu braço.
As duas sabiam o que eram aqueles portais. Os deuses os utilizavam para falar com os habitantes do mundo e, quando desejavam, permitir que alguma coisa atravessasse de um lado para o outro.
Também reconheceram o nome gravado na pedra acima da abertura.
Morteus.
Era o deus das trocas.
Nas histórias que ouviam desde pequenas, Morteus atendia pedidos que outros deuses ignoravam. Oferecia riquezas, proteção, conhecimento e até criaturas raras. Mas sempre cobrava alguma coisa, e quem aceitava suas ofertas podia descobrir tarde demais quanto havia entregado.
— Foi você quem me chamou tantas vezes — disse uma voz através do portal.
Aurora apertou a mão da prima.
— Eu pedi um dragão.
— E ele está aqui.
A pequena criatura ergueu a cabeça ao ouvir a voz. Flor aproximou-se da passagem e encostou o focinho no dele. Os dois ficaram se cheirando através da abertura.
— O que você quer em troca? — perguntou Anastacia.
— Que ele e Flor tenham filhotes quando crescerem.
Aurora esperou. Imaginou que a voz continuaria, mas Morteus permaneceu em silêncio.
— É essa a condição? — ela perguntou.
— Vocês deverão permitir que os dois cresçam juntos e tenham descendentes.
Parecia simples. Flor teria companhia, Aurora finalmente cuidaria de seu próprio dragão e, um dia, poderiam nascer outros.
Anastacia continuava segurando o braço da prima.
— Estamos falando de Morteus — lembrou.
Aurora olhou novamente para a criatura do outro lado. O pequeno dragão acompanhava cada movimento de sua mão.
— Ter filhotes pode ser uma coisa boa — respondeu. — Flor não vai mais ficar sozinha.
As duas conversaram junto à entrada da caverna. Tentaram encontrar algum perigo naquela exigência, mas pensaram apenas no trabalho de cuidar dos dragões e dos futuros filhotes. Nenhuma delas perguntou a quem os descendentes pertenceriam.
Quando voltaram ao portal, Aurora aceitou.
A abertura se alargou. O pequeno dragão atravessou, tropeçou numa pedra e foi amparado por ela.
Aurora o segurou contra o peito.

Na volta para o castelo, decidiu chamá-lo de Lotus.
Flor e Lotus cresceram juntos.
Dormiam perto um do outro, treinavam na mesma clareira e acompanhavam as primas pelos jardins do castelo. Aos poucos, Lotus passou a reconhecer os passos de Aurora e a esperá-la junto à porta.
Ele tinha um temperamento mais difícil que o de Flor. Reclamava quando precisava interromper uma brincadeira, escondia os objetos que encontrava e se recusava a repetir um exercício depois de errar. Aurora precisava de paciência para fazê-lo tentar outra vez.
Ainda assim, ele também a procurava quando estava assustado e só sossegava depois que ela se sentava ao seu lado.
Aurora o amava. Com o passar do tempo, deixou de pensar na caverna.
Anastacia também se acostumou à presença de Lotus. Via Flor dormir tranquilamente junto dele e começava a acreditar que, daquela vez, a troca com Morteus terminaria bem.
Anos depois, Flor e Lotus tiveram sua primeira ninhada.

Nasceram quatro filhotes: Aster, Rosel, Iris e Azalor.
A notícia se espalhou pelo reino. As pessoas conheciam a coragem de Flor e sabiam que aqueles pequenos dragões, quando crescessem, poderiam ajudar a proteger as estradas, as aldeias e o castelo.
Durante dias, Aurora e Anastacia receberam visitas de gente querendo vê-los. Precisaram limitar as entradas para que Flor pudesse descansar.
Os quatro cresceram sob os cuidados das primas e dos dois dragões.
Mas Aster e Rosel davam mais trabalho.
Disputavam comida mesmo quando havia o bastante para todos, empurravam os irmãos para fora do ninho e transformavam brincadeiras em brigas. Aurora precisava separá-los com frequência.
Ela atribuía aquilo ao temperamento de Lotus. Lembrava como ele havia sido teimoso quando pequeno e acreditava que os filhotes também aprenderiam com o tempo.
Anastacia ajudava nos treinos. Ensinavam os quatro a responder aos chamados, a pousar sem se machucar e a voltar para o abrigo antes de escurecer.
Aster e Rosel demoravam cada vez mais para obedecer. Às vezes, interrompiam o que estavam fazendo e ficavam olhando para as montanhas.
Ninguém sabia que Morteus já os chamava.
Numa noite, depois que os quatro haviam aprendido a voar, Aster e Rosel acordaram ao mesmo tempo.
Flor e Lotus dormiam junto de Iris e Azalor.
Do lado de fora do abrigo vinha um chamado que apenas eles conseguiam ouvir. Era o mesmo som que, anos antes, levara Aurora até a caverna.
Os filhotes atravessaram o jardim, alcançaram o alto do muro e voaram na direção das montanhas.
Sempre que hesitavam, o chamado se repetia.
Na caverna, encontraram o portal aberto.

Morteus conduziu Aster e Rosel através da passagem e os levou para um acampamento distante, onde homens do Black Sea aguardavam sua chegada.
O Black Sea era um grupo de conquistadores que saqueava povoados e tomava territórios pela força. Seus integrantes procuravam armas, magia e criaturas que aumentassem seu poder. Dois dragões, criados desde pequenos para obedecer às suas ordens, eram uma vantagem que dificilmente conseguiriam obter sozinhos.
Morteus havia preparado aquela entrega desde o encontro com Aurora.
Ao exigir que Flor e Lotus tivessem filhos, o deus garantira que nasceriam novos dragões naquele mundo. Pretendia tomar metade da primeira ninhada e entregá-la ao Black Sea. Escondera essa parte do acordo das duas primas.
Aurora acreditara que estava aceitando cuidar de uma família de dragões. Morteus já havia escolhido o destino de Aster e Rosel.
Os chamados também explicavam parte da inquietação dos filhotes: o deus vinha atraindo sua atenção e afastando-os dos cuidados de Flor, Lotus e das primas. Naquela noite, fizera os dois seguirem sua voz até a passagem.
Quando o portal se fechou, eles estavam longe demais para ouvir a mãe.
No castelo, Flor acordou e começou a procurar pelo abrigo. Seus chamados despertaram Lotus e, pouco depois, Aurora.
Anastacia chegou enquanto a prima examinava o jardim. Encontraram marcas pequenas na terra, junto ao muro, mas nenhum sinal de luta.
Para elas, Aster e Rosel haviam fugido.
Aurora passou o resto da noite chamando pelos dois, com Lotus ao seu lado. Ainda não sabia que os dragões que o reino esperava criar como protetores agora seriam criados por seus inimigos.